A Trajetória Econômica

A História de Januária - MG

Januária, MG, nasceu como arraial do Brejo do Salgado, no sertão do norte mineiro, e cresceu como porto de comércio às margens do rio São Francisco.

Brejo do Salgado: águas salobras e currais

Entre os séculos XVII e XVIII o rio São Francisco funcionava como caminho natural entre o sertão mineiro e a Bahia, e foi por ele que chegaram as expedições e os currais que deram origem a Januária. Quem subia o curso d'água ocupou terras percorridas por povos indígenas do vale, entre eles os Xakriabá, que viviam na margem esquerda do rio, no norte do estado. O povoado inicial recebeu o nome de Brejo do Salgado por causa das águas salobras que afloravam nos terrenos alagadiços da área.

Esse núcleo original ficava a cerca de cinco quilômetros da margem esquerda do São Francisco e viveu da criação de gado em currais abertos ao longo do rio, atividade que sustentou a ocupação do norte mineiro. À beira d'água formou-se um ancoradouro para depósito e troca de mercadorias, conhecido como Porto do Brejo do Salgado e, depois, apenas Porto do Salgado. O naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que percorreu a região em 1817, registrou a prosperidade do lugar e o volume das trocas comerciais.

Três nomes para um mesmo município (1811-1884)

O primeiro reconhecimento formal veio em 2 de janeiro de 1811, quando uma resolução criou o distrito de Brejo do Amparo. Em 30 de junho de 1833, nova resolução elevou o distrito à categoria de vila, com a mesma denominação. A sede, porém, permaneceu por décadas afastada do porto que concentrava o movimento econômico, e leis provinciais aprovadas entre 1836 e 1885 transferiram o centro administrativo várias vezes entre Brejo do Amparo, Brejo do Salgado e o povoado ribeirinho de Porto do Salgado.

A Lei Provincial n.º 1.093, de 7 de outubro de 1860, elevou o município à condição de cidade, com a denominação de Porto do Salgado, e essa data é lembrada como marco de fundação. O topônimo atual chegou com a Lei Provincial n.º 3.194, de 13 de setembro de 1884, que determinou que o município passasse a denominar-se Januária. Brejo do Amparo seguiu como distrito, enquanto a sede à beira do rio reunia os armazéns e as casas de negócio do sertão norte-mineiro.

Barcas, alambiques e o comércio do porto

Durante o século XIX, o porto de Januária funcionou como entreposto entre o norte mineiro e o baixo curso do rio. Barcas e barcos de tolda subiam e desciam o São Francisco carregando sal, gado, couros, algodão, rapadura e aguardente, e serviam também como estabelecimentos comerciais itinerantes, vendendo pelo caminho. A navegação a vapor no São Francisco foi inaugurada em fevereiro de 1871 e, a partir de 1902, o tráfego regular ampliou o alcance dessas trocas, ligando o porto januarense ao alto curso do rio e aos mercados baianos, rio abaixo.

O século XX inverteu a lógica. Com a carga migrando para os caminhões e a pavimentação da BR-135 — que corta o Norte de Minas em direção ao Nordeste e virou o principal acesso ao município —, o porto ficou reduzido ao movimento local de embarcações menores. No mesmo período consolidaram-se os dois produtos que ainda identificam a cidade: a cachaça de alambique, com engenhos concentrados na região do Brejo do Amparo, e o artesanato em barro, fibras vegetais, madeira e couro.

O município no século XXI: rio, cachaça e Peruaçu

Em Januária, o recenseamento de 2022 apurou 65.150 moradores. O município é um dos maiores de Minas Gerais em extensão — passa de 6,6 mil quilômetros quadrados —, o que dilui a população em cerca de 9,8 habitantes por quilômetro quadrado. A sede permanece na margem esquerda do rio São Francisco, em área de transição entre cerrado, caatinga e matas secas, com chuvas concentradas de outubro a março. Quem nasce na cidade é chamado januarense.

Hoje o município vive de comércio e serviços, agropecuária, pesca no rio e produção de cachaça artesanal, além do ensino técnico e superior, com um campus do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais herdeiro da escola agrícola instalada na cidade em 1960. Parte do território municipal integra o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, criado em 21 de setembro de 1999, com cerca de 56,4 mil hectares compartilhados com municípios vizinhos, onde há mais de duzentas cavernas catalogadas e pinturas rupestres milenares. Em 13 de julho de 2025, o parque foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO como sítio natural.

Alambiques, artesanato e o traçado antigo da beira do rio guardam em Januária (MG) a memória de mais de um século de comércio fluvial. Rio, sertão e porto: é dessa combinação que o município se explica, no norte de Minas Gerais.